Escolhas, escolas e caminhos

Que horas preciso acordar amanhã? Quantos alarmes vou colocar para tocar? Acordo no primeiro, ou aperto o soneca? O que vou comer no café da manhã? Aliás, terei tempo de tomar café da manhã? E que roupa vou vestir? Será que precisarei levar um casaco ou não? Escolhas. Muitas escolhas, aliás. Escolher faz parte do seu dia quer você queira ou não e só aprendemos a fazer escolhas quando, bem, precisamos fazer escolhas. Ao optarmos pelo restaurante X ao invés da lanchonete Y, por exemplo, estamos pensando ativamente sobre nossas opções, levando em consideração os resultados possíveis e entendemos que essa pequena escolha terá uma consequência que precisaremos lidar, como a conta que precisaremos pagar.

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Quando não precisamos fazer escolhas, alguém as faz por nós. E quando alguém faz as escolhas, acabamos perdendo nossa individualidade.

Fazer escolhas exige habilidades essenciais para nossa vida profissional e pessoal, mas você provavelmente conhece pessoas que não têm capacidade ou vontade de decidir. Isso também é normal, é um mecanismo de fuga natural que temos. Quando alguma outra pessoa toma a decisão por mim, eu não preciso me responsabilizar ou carregar alguma culpa caso o resultado daquela decisão não seja satisfatório – posso até mesmo usar o famoso “bom, quem decidiu isso não fui eu”. Já quando eu faço a escolha, não há ninguém mais que eu possa responsabilizar a não ser eu mesmo. Essa capacidade de tomar decisões e fazer escolhas é essencial para o desenvolvimento de liderança, e deveria ser muito bem trabalhada em nosso desenvolvimento cognitivo e emocional, não é mesmo?

 

Sabemos que a hierarquia formal, apesar de ainda existir, sofre por uma grande transformação em muitas indústrias no mercado profissional. Podemos ter um chefe, um diretor, um gerente, mas a liderança não é estática. Um profissional recém-chegado à empresa pode se tornar o líder de um projeto, ou um mesmo projeto pode ter vários líderes diferentes em suas diferentes etapas, de acordo com os pontos fortes de cada um na equipe. Para sermos capazes de conhecermos nossos pontos fortes e fracos, precisamos aprender um pouco mais sobre nós mesmos. Precisamos aprender nossos gostos e vontades, precisamos ser capazes de ponderar o momento de falar e o momento de calar, o momento de criticar e o momento de elogiar. Precisamos aprender a fazer escolhas de uma forma crítica.

Essa capacidade de fazer escolhas críticas é um dos benefícios do trabalho com o pensamento crítico. Porém, vemos que a escolarização acaba por diminuir cada vez mais, com o avançar dos anos acadêmicos, com a necessidade de uma escolha por parte do indivíduo. Isso se torna muito evidente a partir do ensino fundamental 2 e apenas piora com o passar dos anos, até chegarmos ao ensino médio. Quem toma todas as decisões em sala é o professor, seja por vontade própria ou por imposição da escola. É uma grave crise de confiança na capacidade dos jovens de tomarem uma decisão e, por isso, seria melhor decidirmos por eles.

Decidimos o que precisam e o que não precisam fazer na escola, decidimos que interesses alheios aos acadêmicos são inferiores aos acadêmicos, que não serão capazes de ganhar a vida enquanto artistas ou atletas e que, por isso, devem fazer apenas aquilo que lhes é cobrado: estudar para passar em uma prova (quantos de vocês já ouviram a frase, “você só tem que fazer isso na vida”?). Na maioria das escolas, sequer permite-se que o jovem escolha o horário que pode ir ao banheiro. É o professor quem decide. É o professor quem decide se o aluno pode ou não aprender algo com o colega, se pode ou não sentar em determinado lugar na sala, se pode beber água ou não e, em alguns casos, até mesmo se precisa copiar ou não a matéria do quadro. Todas essas decisões, em uma época de tamanha transformação cognitiva e emocional não pode gerar algo diferente de conflitos, com os jovens não vendo a hora de sair da escola.

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Que tal repensar nossa forma de educar? Que tal passar a confiar que os jovens são capazes de fazerem escolhas?

O irônico é que pedimos que esses jovens estejam prontos para decidir o que querem fazer da vida, que saibam o que gostariam de fazer enquanto profissão, que sejam capazes de decidir o presidente do país e que possam escolher onde gostariam de estudar sem ensiná-los a tomar decisões e a fazer escolhas. Não se aprende a fazer escolhas de forma automática e natural apenas com o passar dos anos. Quando a única escolha que exigimos dos jovens é sobre as letras A, B, C, D e E, como podemos esperar que façam qualquer outra escolha de forma racional e consciente?

 

É preciso reimaginar a escola. Reinventar. Repensar objetivos e expectativas em relação à educação. Sem isso, continuaremos a preparar jovens para o mundo em que seus pais entraram no mercado de trabalho, um mundo pré-Internet, antes da revolução que estamos vivendo atualmente. Para que mundo nossos jovens devem ser preparados?

8 thoughts on “Escolhas, escolas e caminhos

  1. O senhor saberia me indicar uma escola que não fosse muito cara em Vancouver para uma aluna do colégio Seriös que fará o 1. Ano do ensino médio em 2018. Isabel Cristina, Irma do João Cavalcante. Obrigada

    1. Olá, Isabel.
      Infelizmente, não tenho uma escola específica de high school para indicar. Vou procurar me informar, mas, nesse meio tempo, uma busca pela internet pode ajudar a verificar algumas escolas que queira entrar em contato. Assim que souber de algo, te informo!

  2. Legal encontrar velhos conhecidos na internet, ainda mais em assuntos do meu interesse. Mas voltemos ao tópico em questão, eu concordo com a importância didática das escolhas. Foi um dos motivos pelo meu interesse por jogos educativos. Justamente por ser um método de aprendizagem ativo, tudo o que ocorre no jogo, inclusive a aprendizagem, depende da tomada de decisão. Dentro do ambiente de jogo o aluno aprende a partir de sua experiência em interagir com o “sistema” jogo e com outros jogadores.

    1. Olá, Renato!
      Encontrar velhos conhecidos é sempre bom! Jogos educativos e a gamificação na educação são elementos excelentes para conseguirmos criar uma nova proposta de aprendizagem. A interação e a necessidade de aprender algo para seguir adiante são extremamente motivantes e facilitam a retenção do que é aprendido, né?! Como você tem trabalhado com esses jogos?

      1. Eu desenvolvi um jogo sobre o Cerrado, baseado nos Eurogames, durante o mestrado e atualmente estou testando em aplicando em escolas. É um projeto de popularização da ciência. E observo in loco como aplicar um jogo em escolas e avaliar seu funcionamento é tão ou mais complexo quanto criar o jogo em si.

  3. Por fim, sobre o reimaginar a escola. Acredito que estamos numa mudança de modelo, especialmente dessa analogia industrial de escola como fábrica de formados. Sei que são analogias e em princípio elas são inexatas, mas o simbólico tem uma grande força em nosso modo de pensar.

    Tive uma experiência recente com uma escola comunitária e confesso que fiquei com uma boa impressão de processos de aprendizagem que tendem para algo mais natural, individualizado, subjetivo e, quem sabe, artesanal.

    Não sou contra instrumentos como provas objetivas, indicadores e etc. Eles tem sua importância, mas acho que esses dados devem ser triangulados com informações qualitativas para conseguirmos analisar as pessoas como os indivíduos que são.

    1. Há muito debate atualmente sobre esse ponto da escola como algo que prepara o aluno para um mundo que não existe mais. Sobre a forma de passarmos instrução, que vem de 1893, em um mundo em que o cidadão precisava se preparar para um trabalho mecânico, repetitivo, onde não pudesse errar e onde a resposta fosse única. A grande questão é que não é mais esse tipo de pessoa que a sociedade precisa para continuar o seu desenvolvimento. As palestras fazem muito sentido quando não se tem acesso à informação além do que o professor fala. Por exemplo, em uma comunidade muito carente, onde não há acessibilidade à Internet, onde não há livros de pesquisa atualizados, a passagem de instrução feita por um profissional que possui mais conhecimento do que os alunos ainda faz muito sentido. É o objetivo daquela pessoa, o que é necessário que faça: transmitir informações. E com o tempo super restrito que temos para a formação de professores, talvez seja a única coisa que esse profissional tenha aprendido a fazer.

      No entanto, sabemos que essa não é a melhor forma de aprender. Em todas as nossas experiências de aprendizado, vemos o quão importante é para nós termos a aplicação do conhecimento. Com o perdão da generalização, ninguém aprende a tocar um instrumento musical apenas estudando a teoria, ou a dirigir apenas por ver os pais dirigirem, ou aprende a jogar futebol apenas vendo na televisão. Não se aprende a usar um programa de computador apenas vendo outra pessoa usar, ou a falar uma língua sem termos a necessidade de nos comunicarmos nessa língua. E para tudo isso, temos como verificar a aprendizagem sem a necessidade de uma prova objetivo. Você sabe nadar? Sim. Pode ainda melhorar? Sim. Mas não é te dando uma nota 6.8 que digo que você nada melhor do que quem tirou 6.5, ainda mais em uma prova escrita. É passando feedback específico e pontual sobre o que fazer para melhorar.

      Há espaço para provas em escolas? Sim, talvez ainda haja esse espaço. Há necessidade? Acho que não. Por que fazemos ainda? Por que é aquela velha máxima: “sempre foi feito assim”. Mas sabemos (e há exemplos) que mostram que a aprendizagem é mais eficaz e duradoura quando temos desafios reais para resolver, e não questões de provas. Um exemplo fácil de verificar isso é aplicar aos alunos, em seu retorno de férias, as últimas provas que fizeram antes de sair de férias. O resultado é horroroso. Isso é o que se ganha ao se ensinar para provas. Quando aprendemos algo para resolver questões reais, o aprendizado é real, significativo e transferível. Isso é o que precisa mudar.

      Quanto à provas objetivas e notas, tenho alguns problemas. Por exemplo, acho um absurdo um professor em um conselho de classe alegar que manterá a reprovação de um aluno que ficou com média final 5.7 (quando a média para aprovação é 6.0) e afirma, categoricamente, que o aluno não tem as mínimas condições de seguir adiante. Mas pergunte ao professor qual a diferença deste aluno, em termos do que ele sabe ou não fazer, para um aluno que tirou 6.0. Sabe a resposta, né?! “Ah, mas o outro não sabe mas estudou para a prova e tirou a nota.” Mas segue adiante com déficit de aprendizado, e isso vira uma bola de neve absurda.

      Ah… tantas reflexões…

      Grande abraço!

  4. Eu concordo que as provas tem problemas, mas acho que perdemos a visão de que elas são instrumentos (e todo instrumento tem usa margem de erro) e foram se tornando um fim em si mesmo. E acredito até que sejam mais importantes para o sistema de ensino do que para o aluno em si. E aí estão escolas e governos de digladiando em cima de PISA, IDEB’s etc .

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